Aline Campbell

por felipenascimento90

11061998_1043781035646777_5613330685214481952_nSeria possível viver agora, imediatamente, a utopia de um mundo baseado na confiança e colaboração, onde as pessoas compartilhassem recursos e momentos por vontade própria mesmo sem se conhecerem? Olhando para fora, no mundo refletido por nossas telas e medos, parece algo distante, inalcançável. Mas o que se percebe conhecendo Aline Campbell, e sua história narrada no livro Portas Abertas, é que esta condição, na verdade, já existe. Mas existe apenas a quem se propõe se libertar de seus medos, desejos de posse, preocupações com o futuro, e passa a confiar na positividade do universo, no encontro com o desconhecido. Assim é possível viver três meses em outro continente sem nenhum dinheiro, viajar pelo Brasil de caronas com o cão de estimação, se manter de forma independente alugando o imóvel a viajantes desconhecidos. E como é demonstrado no livro de Aline, engana-se quem pensa que isso tudo significa principalmente depender dos outros. Trata-se, acima de tudo, de depender de si mesmo.

Aline Campbell Nunes Soares, carioca de 88, é viajante, artista plástica e membra ativa dos sites de compartilhamento de hospedagem Couchsurfing e Airbnb, pelo qual aluga seu apartamento na Lapa. Ela ficou conhecida por sua viagem de três meses à Europa, em 2013, no qual viveu no continente o tempo todo sem utilizar dinheiro. Em 2014, viajou com seu recém adotado cão, Saga, pelo Brasil, priorizando o contato com a natureza. Ela vive atualmente em Búzios, litoral do Rio de Janeiro, junto com Saga e a filhote dele: Hara. Também mantém ativa a página do facebook Portas Abertas , onde compartilha suas histórias e pensamentos.

Li o Portas Abertas começo deste ano, o que me despertou a vontade de retornar com as entrevistas deste site, paradas há mais de um ano e meio. Fui até Búzios e passei uma ótima tarde com Aline, o que me deu a certeza de que foi a pessoa certa para o retorno do Voo Subterrâneo. O resultado de nossa conversa em áudio você pode ouvir aqui, com os principais trechos editados no texto abaixo.

ABRINDO AS PORTAS

Sempre começo perguntando a construção até chegar o estilo de vida que a pessoa tem hoje. Como você foi se construindo  até chegar a seu estilo de vida?
Começou com a ideia de portas abertas mesmo, quando eu descobri o couchsurfing. Comecei a abrir as portas de casa para receber gente do mundo inteiro. Fiquei apaixonada por essa ideia, minha mente abriu de uma forma tipo… explodiu.

Você tinha quantos anos mais ou menos?
Já era meio velha [risos]. Tinha 21, 22. Morava na Lapa, sozinha. Moro sozinha desde os 17; foi fácil para mim na verdade, ganhei o apartamento. Aí eu descobri essa ideia através de um amigo. Eu estava querendo aprender a falar inglês e tinha um amigo que vivia cheio de gringo, turistas para lá e para cá. Ele falou do couch, aí eu abri o perfil. Na minha primeira experiência de hospedagem eu botei sete pessoas, apartamento de um quarto. Eu não sabia falar não, né. Fui hospedando um atrás do outro, por seis meses, todo dia. Eu falava que não morava mais sozinha, morava com os hóspedes. Aí a partir do couchsurfing eu resolvi fazer a primeira viagem para fora do país, pro Canadá.

Até então você só recebia?
Só recebia, aí tive a vontade de experimentar o couchsurfing como hóspede. Meu objetivo era melhorar o inglês, ainda não era fluente. Fiz um mês de intercâmbio, mas fiquei três meses como couchsurfing. Sempre me mudava, mais de 20 casas diferentes, na mesma cidade (Toronto). Minha ideia era essa, ficar mudando. Assim que aprendi a falar inglês: me comunicando, perdendo, pedindo informação. E no Canadá também peguei carona de beira de estrada pela primeira vez.

Isso da carona foi por opção também?
Eu não lembro como me chegou a ideia da carona, provavelmente de algum hóspede. Eu estava em Toronto e queria ir a Montreal, que tem o festival de jazz, um dos maiores do mundo. E é a mesma história: por mais que o Canadá tem índice de criminalidade quase zero, quando eu contava que ia pegar carona, todo mundo: “não, é perigoso, você é louca”. Qualquer lugar do mundo, seja em Toronto, Rio, mesmos medos implantados. A cultura do medo, né.

Aí já você começou a sacar essas coisas, que a dificuldade era mais ilusória…
É. Quando eu comecei a receber a galera fui me dando conta. O ponto mais importante que sempre abordo no Portas Abertas é que o mundo não é tão perigoso quanto a gente pensa que é. Vi tanta gente viajando, homem, mulher, tudo.

Digamos que você pensou isso vendo as pessoas e depois aplicando?
É. Fiz a viagem, depois voltei, continuei no couch, aí descobri o airbnb. Comecei a alugar o apartamento e viver disso. Minha renda hoje é 100% do Airbnb.

TRABALHO, VEGETARIANISMO E UNIVERSIDADE

Até então, como você trabalhava?
Trabalhava como freelancer em festa, de bartender. Eu gostava, ainda gosto da ideia de festa, trabalhar com gente, mas era muito cansativo. Foi um hóspede meu do couchsurfing que me deu a ideia, ele era de Berlim, alugava o ap. dele e viajava com o dinheiro. Eu comecei a lugar morando e recebia todo mundo junto: couchsurfing, amigos, airbnb. Era tudo escrito na descrição do anúncio, a proposta era essa: interatividade. Deu super certo. Às vezes tinham hóspedes juntos de graça e pagando, eu falava: “olha, não tem diferença nenhuma entre vocês, a única foi o meio que você me achou”.

Aquele apartamento próprio você mantém no airbnb, né?
É, administro por aqui, trabalho online organizando. Apesar de não ter desgaste físico – trabalho em casa poucas horas, tenho o dia livre, sou muito privilegiada e sou grata por isso – mas é muito desgaste mental. Lidar com reserva, turismo, dinheiro, é muita coisa pra pagar, muito pepino pra resolver. É foda, mas me dá toda essa liberdade que tenho.

Com 17 anos você já era vegetariana, né. Por questões ideológicas, éticas?
Huhum. Comecei pela questão ética. Muita crueldade, não tem necessidade. Aí depois eu fui estudando e vi que é muito mais profundo. Hoje em dia a questão ética é a mais fraca. Por exemplo, numa necessidade, se eu realmente precisasse caçar e comer, eu comeria carne. Mas não preciso. Acho que hoje é mais pelo meio ambiente.

Tem até aquele documentário, Cownspiration
Cownspiracy. Por isso que resolvi começar a dieta vegana em casa. Esse documentário foi a gota da água.

Você teve algumas discussões na Europa por causa disso. Eu achava que era mais aberta essa questão comparada ao Brasil…
É muito mais. Acho que quanto menos desenvolvida a região menor a consciência sobre o vegetarianismo. Quando eu fui pra Sérvia eu tive mais dificuldade com o vegetarianismo, de lidar com as pessoas. Mas de maneira geral, na Europa, você fala que é vegetariano e as pessoas: “pô, maneiro, que bom”, não ficam questionando um monte de coisa.

Coincidiu você ser vegetariana com ter ido morar sozinha?
Não teve relação. Acho que o vegetarianismo foi o pontapé inicial para o meu ativismo. Com 16, 17, já estava questionando muita coisa. Estava batendo de frente com meus pais, família tradicional. Muita discussão, não estava aguentando mais morar com eles. Privilegiada de ter o apartamento, mas acho que sairia de casa de qualquer jeito.

Rolou muito conflito, até com essa ideia de receber gente de fora?
Sobre isso não, meus pais sempre foram portas abertas também.

E você fez faculdade?
Fiz turismo [Estácio de Sá].

Se formou?
Huhum, mas nunca busquei o diploma.

Te ajudou a abriu a mente?
Não, me ajudou a ver que não quero me submeter a títulos de academia. Eu me formei muito nova, o curso era de dois anos e meio, com 21, 22, já estava formada. Nos últimos seis meses já estava “caralho, que estou fazendo aqui”. É uma lavagem cerebral muito forte. Se você não está com o olho muito aberto você cai na armadilha e começa a acreditar nessa realidade que impõem na gente.

“QUANTO MAIS EU ENTREGO, MAIS COISA BOA ACONTECE”

No Rio eu recebia muita galera mochileira, viajando sem grana, de formas alternativas. Eu nunca tinha visto isso até então, porque se você está dentro da bolha não vê muita coisa. Você tem que sair, conhecer as pessoas de fora. Você fica: “caralho, é possível isso, é possível aquilo”. Na verdade é possível muito mais.

O ponto de mudança, onde você começou a encontrar seu caminho, foram teus hóspedes…
Essa visão de mundo exterior, fora da casa, foi 100% com a galera de fora falar: “Aline, olha o que tem aqui fora”. A ideia de viajar sem dinheiro veio também com pessoas de outras culturas. Foi um manifesto mais ousado. Ao contrário do que muita gente pode pensar quando escuta da viagem, a proposta não foi o dinheiro em si. O dinheiro foi só uma situação que eu quis me colocar para estar no extremo dentro do sistema. Falam que você não é nada se você não tem. E como vai ser se eu não tivesse, será que não sou nada mesmo? Queria mostrar para mim, em primeiro lugar, os desafios são primeiro para mim. Como vai ser não ter dinheiro, quando eu sempre tive? Aí tive a ideia também de escrever sobre isso e virou o livro. Aí também a questão do desapego. Cada vez que voltava de viagem, me desfazia de mais coisa. Quando estava viajando com o Saga, lembro que liguei pra minha tia e falei: pode pegar tudo do meu guarda-roupa e doa. Hoje eu vivo com muito menos. Considerando o meio externo acho que vivo com muito pouco.

Você passou alguns perrengues, normal, da viagem…
Poucos. Na verdade foram muito poucos, fiquei surpreendida.

Mesmo passando alguns perrengues, quando a questão material falta, você acha que vale mais a pena… muitas vezes a gente tem algumas coisas para se precaver. Vale mais a pena estar menos precavido e mais livre?
Eu não me previno muito. Parto do princípio que se eu realmente precisar de alguma coisa vai me chegar essa coisa. Estava na Áustria, frio pra caralho, final do verão, consegui casaco emprestado. Antes disso, quando estava em Amsterdã, friozinho, consegui um casaco do nada: um cara sentou do meu lado e me deu um casaco. É impressionante como o universo conspira quando a gente consegue achar a linha. É bizarro isso e não tem como explicar, só vivenciando.

Você tem alguma teoria sobre isso, o que são essas sincronicidades?
Ah, não sei… Acho que se o que se o que você quer é aquilo que pensa e faz, que nem diz Raul, vai dar tudo certo. É tentar ser o mais coerente possível. Se você quer alguma coisa: agir conforme aquilo. E de repente tudo começa a dar certo, bizarramente, misteriosamente. E é uma prática diária. Eu li alguns livros que tratam desse assunto, que me fazem até hoje pensar nas minhas ações e pensamentos, e como eles influenciam no dia a dia. Foi o comercial do Paulo Coelho, o Alquimista; e Conversando com Deus [Neale Donald Walsch], três volumes. Muito foda. Mas acho que não existe perrengue. Pô… cada situação que passei nas viagens vieram no momento que teve que vir pra me ensinar alguma coisa.

Me lembrei daquela parte do livro quando teve três caras seguidos que te assediaram [na Sérvia]. Fiquei bem surpreso com a forma que você conseguiu lidar, porque normalmente, quando alguém nos agride, é meio que automático a reação de se achar uma merda, ou ficar com raiva das pessoas. Mas você tirou de letra…
Eu aprendi a lidar muito bem com isso, a questão do assédio. Acontece de vez em quando, mas você já sente do início, umas piadinhas, umas indiretas. Já daí mudar a postura, mudar os diálogos.

Não só a questão do assédio, mas dos contratempos. Você lida com eles não de uma forma automática. “Aconteceu algo ruim vou ficar mal, desistir de tudo”, algumas pessoas agiriam assim.
Não. Eu tento sempre pensar no que está acontecendo, no que aconteceu, e por que está acontecendo. Os sinais, né, o lance do Alquimista. Tudo acontece por algum motivo, uma razão. Você tem que estar muito atento, prestar atenção.

Acho que é uma relação de confiança então com o universo, né?
É. E quanto mais eu entrego, mais coisa boa acontece. Muita coisa boa acontece comigo. Eu saio com alguém e as pessoas me falam o tempo inteiro: “nossa, você é sortuda”. É a coerência. Você pensa e faz.

Acho que muitas pessoas têm dificuldade nessa coerência, justamente. Porque tem um lado do cérebro que vê “ah, é real, o universo trabalha assim”. Mas há outros problemas que tem por baixo e meio que não há uma coerência porque você não está inteiro.
Acho que o problema maior são os problemas implantados. Você acaba vivendo o medo do outro. “Ah, Aline, você não tem medo”? Eu tenho, passei por várias situações de medo. É natural do ser humano ter medo, mas você tem que enfrentar o medo, não deixar ele te denominar. Se eu tenho medo de uma coisa eu enfrento. E tento ser muito positiva, só pensar coisa boa. Pensar de verdade, que qualquer pensamentinho pode acabar atraindo alguma coisa ruim.

REPERCUSSÃO DO LIVRO E DIFAMAÇÕES

Quando você viajou já estava pensando em escrever o livro também?
Já, saí daqui com a ideia de escrever o diário. Escrevia todos os dias, que se eu pulasse algum dia esquecia metade das coisas que aconteceram.

E a repercussão que teve te surpreendeu, já esperava?
Não esperava, mas imaginei que fosse acontecer alguma coisa por ser inédito. Eu sabia que ia ter repercussão porque lidar com essa ideia de viajar sem dinheiro atrai muita gente. Todo mundo pensa: “quero viajar mas estou sem dinheiro”. Mas é de dentro pra fora: você não pode querer viajar sem dinheiro se você ainda tem esse pensamento consumista, não vai funcionar.

O fato de dar essa repercussão. Teve alguma coisa que te incomodou? Porque a imprensa às vezes desvirtua um pouco.
Na verdade me surpreendeu positivamente. Saiu uma matéria na Record, gravada, estava com medo danado disso, mas me surpreendeu com o resultado, ficou muito bonita. Tem aquela coisa: “[imita voz de repórter] você imaginaria passar três meses”… mas foi linda a matéria. Fiquei bem feliz, essa foi a única editada [para TV].

Teve uma no G1 que você chegou a comentar, não foi? Que teve uns comentários escrotos.
Foda. A internet está num nível que… não sei lidar. No sentido que de que não sei porque as pessoas estão agindo assim, ou sei mas não entendo. De super julgar o outro, querer comentar a todo o custo, impor a todo custo.

Mas isso te afeta?
Afetava muito no começo. A primeira matéria que saiu no G1, quando vi os comentários falando “ah, puta, óbvio que se prostituiu”. Caralho velho, nem passou pela minha cabeça que pudessem pensar isso. Fiquei bem chocada, nada a ver, distorceram tudo. Aí um monte de gente apoiando essa ideia, curtindo o comentário. Até conversei com Eduardo Marinho nessa época. “Aline, o que as pessoas pensam não traz para você não, não aceita. Você sabe o que você fez, mas tem gente que não vai entender e vai se incomodar”. Mas depois comecei a relevar, não leio. As matérias que saíram foram boas, até o G1 me impressionou. Mas depois que saiu a publicação do livro teve uma difamação muito grande que viralizou num perfil do twitter que pegou a manchete do G1 e fez uma “piada”. Isso me incomodou muito, porque diferente de comentários, com perfis falsos, quando viralizou no face a questão da prostituição, eram perfis de pessoas. Viralizou pra caralho, acho que teve um cinco canais de piadas, como eles chamam, que compartilharam. Isso levei pra justiça, mas não dá em nada…

Como está esse processo?
Não está. A última notícia que tive foi que pediram quebra de sigilo do perfil do twitter. Aí depois teve o caso do Fábio Porchat. Participei do programa dele, sobre viagens. Aí no final do programa, quando eu não tava mais, ele e outra apresentadora começaram a fazer piada. “Ah, porque dá pra viajar sem dinheiro, é um peito que você mostra, um cara que te banca, um pau que você chupa”. Ele fala isso cara! No final, pra cagar tudo.

Você estava no programa?
Eles falaram isso quando eu não estava, que se eu estivesse… não ia rolar. Aí fui na delegacia, abri o B.O., mas… Fábio Porchat, quem é Aline. Se fosse o contrário é rapidinho, o delegado me falou isso.

“VOCÊ NÃO PODE TIRAR A REALIDADE DO OUTRO PRA JUSTIFICAR A SUA”

As pessoas estão promovendo o ódio sem sentir, está virando um condicionamento também. Inconsciente mesmo, até pessoas boas fazendo isso. Às vezes posto foto minha na praia, falando do poder das escolhas, nós temos poder de escolha muito forte e as pessoas não se dão conta disso. Vire e meche tem comentário [na página do facebook] “ah, você mora aí porque tem apartamento pra alugar, pra você é muito fácil”.

Muito fácil… muita gente que tem a mesma coisa e…
Meu irmão. Meus pais também deram apartamento pra ele. O que a gente fez? Eu segui uma linha e ele está completamente dentro da bolha; a ideia dele é juntar dinheiro pra comprar um com o dinheiro dele, orgulho. Não estou falando o que é certo e errado, são escolhas. Mas você não pode tirar a realidade do outro pra tentar justificar a sua, diminuir o outro pra se sentir melhor. Eu vejo muito isso. E meu, é muito mais fácil do que parece… Eu viajando, hospedando, vi pessoas de todos os tipos, todas classes, todas as cores, pessoas diferentes saindo, viajando, se permitindo viver ao invés de só sobreviver. Falam: “Ah, Aline, mas você só pode porque você teve pais que compraram apartamento pra você”. É verdade, não nego isso. Mas não quer dizer que você não ter pais que compraram imóveis pra você, você não pode.

O que mais você deve ter visto foram pessoas que sem essas condições…
Nossa! Mais até [risos]. Muita gente guerreirona. A Pâmela, da página 100 frescura e mil destinos . Ela é de origem mais humilde e roda o Brasil inteiro, vende coisa na rua, calcinha, brigadeiro, muito massa. Ela não teve pais que compraram apartamento pra ela e conhece o mundo inteiro.

EUROPA

Dessa viagem à Europa, teve alguma coisa que você achava uma coisa e era outra? talvez de lidar com o outro, ou com a cultura.
Minha visão com os ricos [risos]. Eu tinha muito preconceito e vi quem tem muita gente boa independente da classe, eu fui muito ajudada. Conheci gente muito boa, de coração bom, apesar de ter dinheiro. Antes de viajar tinha essa diferença na minha cabeça. Foi um conceito formado a partir dos ricos que eu conheci. Não generalizando, mais a maioria dos ricos que eu conheci aqui… caralho, não dá pra conversar. Só falam de si próprios, de viagens, dinheiro, de posses.

A diferença entre os europeus e brasileiros de maneira geral, o que um tem a acrescentar um com outro? Características que um tem que o outro pode contribuir.
Não sei. Dizem que o brasileiro é mais aberto, mais receptivo e o europeu é mais fechado, mais frio. Mas sinceramente, não vi isso. Pela minha vivência, eu fui muito bem recebida, de braços abertos, e de falar com gente estranha na rua não vi essa frieza. Por isso que desenvolvi a teoria que é o espelho. Se você for lá achando que é isso ou aquilo, você já está projetando a realidade que você vai receber. O que eu vi diferente, se tratando de países mais desenvolvidos, a questão da cabeça mais aberta, em relação a homossexualidade, vegetarianismo, sexo. O brasileiro se diz muito aberto, mas é muito fechado em relação a sexualidade. O Evan [ex namorado de Aline, estadunidense], me falava isso: a impressão superficial é que brasileiro é muito aberto, que a sexualidade é escancarada, mas quando se aprofundo você vê que é outra parada, principalmente em relação à sexualidade.

SAGA

E a história do Saga?
saga e HaraSempre quis ter um cachorro meu. Quando morava com meus pais a gente tinha cachorro vira-lata, mas sempre quis ter um cachorro morando sozinha, e cachorro grande. Achava que não dava morando em apartamento, até que chegou num ponto, quando terminei relacionamento – ele era alérgico, mais um motivo pra não ter cachorro – falei: “é agora”. Eu queria um cachorro filhote pra criar ele na estrada.

A ideia foi junto, tanto de ter um cachorro quanto viajar com ele?
É, veio junto.

De onde surgiu essa pira [risos]?
Estava comendo açaí na Lapa um dia e falei: “vou ter um cachorro”. Cheguei em casa e comecei a procurar raça, e filhote de weimaraner é a coisa mais linda que já vi na vida. Fui estudar: cachorro grande, de caça, dócil, é isso. Mas é foda, você tem que comprar. “Tá, vou comprar cachorro, mas não quero de criadouro”. Aí achei um sítio que os cachorros eram criados soltos, e num cio da fêmea o macho escapou e cruzou todas as fêmeas juntas, três cadelas. Aí eles venderam por um preço simbólico. Peguei o Saga e a gente começou a viajar. Peguei com dois meses certinho e ficamos quatro meses rodando o Brasil.

Qual foi a motivação dessa viagem?
O cachorro, a ideia de ter um cachorro. Falei: “não quero criar um cachorro dentro de um apartamento, vou criar ele na natureza”.

Foi com dinheiro essa viagem?
Foi, sempre viajo com dinheiro. Aquilo [da viagem à Europa] foi uma situação que eu me coloquei pra ter essa vivência, esse aprendizado. Não preciso viajar sem dinheiro de novo, vou buscar outros desafios. Eu estava muito empenhada em fazer uma viagem a pé, mas aí acabou surgindo a Hara.

Pensou em escrever livro também nessa viagem?
Não, passou. Pra escrever livro tenho que escrever na hora. Eu penso em escrever um livo do Saga. Aí vou mencionar a viagem do Brasil, mas vai ser pontual, não vai ser como diário. Mas vou escrever um livro e o título vai ser Saga. Saga é muito maior do que só falar do cachorro. Pensar na minha vida, com este título Saga, é muita coisa.

E o que você conheceu de Brasil, o que te acrescentou nessa viagem em relação ao povo brasileiro, aos lugares?
Não conheço muito aqui. Essa viagem a gente visitou algumas cidades mas não foi muito profundo, foi mais natureza. Aqui não usei couch nenhuma vez, nesse ponto a página já tinha bastante gente acompanhando e os convites surgiram pela página.

E quais foram teus maiores aprendizados, crescimentos, com essa viagem com o Saga?
A relação com o tempo. Desaceleração total. Eu desapeguei muito também [materialmente].

O contato com a natureza, que te acrescenta em relação a cidade?
Não sei responder… só sei que me sinto muito bem em contato com a natureza. Estou gostando muito de morar aqui.

Se mudou pra cá logo depois da viagem com o Saga?
Não, morei em Paraty seis meses com o ex. Lá que eu editei o livro. Um processo longo e cansativo. O livro ficou com 280 páginas, o arquivo original tinha umas 600 pelo menos.

Você fez a viagem na Europa, aí as pessoas comentavam: “ah, na Europa é fácil, quero ver no Brasil”. O que falta, que é digamos impossível e…
Não tem. As pessoas que ficam se colocando justificativa. A justificativa você tem que buscar em você mesmo. “Porque não posso isso, será que não posso mesmo?” Acho que essa é a pergunta. Tem gente viajando de tudo quanto é jeito: sozinha, casal, gays, mãe com filha.

Você estava falando dos condicionamentos. Tem algum que você sente que ainda não conseguiu quebrar, que te atrapalha pra alguma coisa?
Deve ter, sempre tem. O que começa a me incomodar muito eu falo: vou quebrar isso. O lance da viagem sem dinheiro era a questão do consumismo – nem comigo, mas de observar as pessoas. Agora o que está me incomodando muito é a questão dos eletrônicos. A próxima viagem que vou fazer será completamente desconectada, inclusive sem máquina fotográfica. Quero fazer num lugar que nunca fui antes pra me desafiar a isso, não ter registro. Essa quero escrever um livro, tudo à mão. Quero fazer, estou adiando porque teria que arrumar alguém, de confiança e disponibilidade, para ficar com meus cachorros por três meses.

Os cachorros te atrapalham nesse sentido?
Atrapalham nesse sentido sim, prendem muito. Tirei a carteira agora na proposta de viajar com eles. Essa é outra ideia de viagem, arrumar um carro e seguir pela América onde conseguir chegar com eles. Vou fazer, esperando a [carteira] provisória bater.

No contato com eletrônicos o que te incomoda mais?
O distanciamento com o mundo real. É um meio de distração muito poderoso, você se distrai sem se dar conta. Como não tenho smartphone, consigo observar isso em muitas pessoas. Estou, sei lá, na van indo pro centro, às vezes vejo cada coisa legal de observar pela janela. E olho pro lado e não tem ninguém olhando na janela cara! Todo mundo olhando pra baixo, fazendo assim com o dedo. No restaurante, casais sabe. Estou na praia curtindo, vejo pessoas que chegam tiram foto e vão embora.

Esse lance da viagem é que nem o lance da Europa, tanto pra mostrar pra você, de lidar melhor com isso, quanto pras pessoas?
Huhum, e quero escrever. A ideia sempre de escrever é levar essa mensagem, mostrar o outro lado. Que nem vivi sem dinheiro, viver sem eletrônicos. E quero fazer isso no Japão. O desafio maior pra mim vai ser não ter a câmera. Lugar totalmente diferente, que nunca fui. São desafios.

STRING ART

Queria abordar também o lance da string art.
Conheci essa técnica no Canadá. Um anfitrião meu, cheguei na casa dele e tinha esses quadros. Quando voltei pro Brasil: youtube, aprendi o básico, fui desenvolvendo sozinha e hoje tenho um estilo próprio.

Esse lance da arte é expressão tua ou mais um artesanato, questão estética?
É expressão. Eu trato muito essa questão das linhas, são as conexões. É tudo conectado, são teias. Vai da inspiração do lugar que estou, pra pessoa que vou fazer.

Você falou comigo [antes da entrevista] que estava meio numa crise de criatividade…
Não é falta de criatividade, é mais uma… não sei, tenho que puxar respostas ainda. Acho meio vazia só arte pela arte, nesse caso de produzir o objeto. É um objeto, é uma coisa, apesar de ter um significado pra mim… Quero propor uma arte crítica, uma coisa mais direta, como Eduardo Marinho faz. Atrelar os meus conceitos, os ideais que aprendi, a mensagem que quero passar, na minha arte de forma mais direta. Começar a misturar a string art com mensagem, ou fazer umas artes visuais, não sei… Enquanto não sei o que faço continuo não fazendo [risos].

É um processo né?
Agora descobri esse malabares novo [buugeng], vou começar a fazer umas intervenções no centro. Vou fazer isso na rua, provocar no sentido de não cobrar, não passar chapéu. Que nem quando faço minha arte, à vezes levo pra rua, tem gente que pergunta quanto é, quer dar dinheiro, contribuir. É difícil para algumas pessoas entenderem que só pelo fato dela estar ali dedicando o tempo, só pra olhar, apreciar e elogiar, se for o caso, já está me ajudando. E não pode arte de rua aqui [em Búzios], só com autorização. Eles recolhem, é bem rigoroso. Vai ser maneiro quando passar a fiscalização, porque eles não vão ter argumentos. Não vou estar pedindo dinheiro, vou estar só fazendo arte.

***

Tem uma parte que eu faço em todas as entrevistas, que eu jogo algumas palavras e a pessoa dá o entendimento do conceito, o que ela pensa, acha, sobre tal coisa. Aí contigo a que eu mais achei apropriado pra começar seria viagem.

VIAGEM

Viagem pra mim é conhecer pessoas. Conhecer pessoas e a maneira como as pessoas vivem. Por isso quando viajo gosto de ficar na casa de pessoas locais, e quando tenho tempo, paciência, pegar carona. É uma maneira de você imergir na cultura daquele lugar, vai estar conhecendo pessoas locais e não pessoas locais da área turística, é diferente.

E a relação com os lugares: teve algum lugar que você sente mais identificação, que te prende?
Tem muitos lugares que quero voltar, mas de prender não. Se prender eu fico presa, fico lá, se eu sentir realmente essa atração.

Isso nunca aconteceu, algum lugar que “ah, esse é meu lugar”?
Gostei muito de Leipzig, gostei muito da Alemanha em geral. Mas Alemanha no verão, teria que passar pelo menos um ano lá pra ver. Canadá também fiquei apaixonada, mas foi outro destino que fui no verão.

Você se vê viajando a vida inteira?
Não sei, eu não penso muito pra frente. Eu vivo o presente e um futuro muito próximo. O meu “pensar amanhã” é literal, no amanhã amanhã [risos]. Não tem como planejar o futuro.

Uma coisa que sinto às vezes em mim e nos outros: uma necessidade de viajar sempre, só que a gente sempre está se levando e às vezes é uma questão mais interior do que tentar ir por fora pra descobrir coisas. Você sente isso também?
Viajar como uma fuga, né?

É, às vezes acaba se tornando um escape…
Pra mim não. Eu já vi pessoas fazendo isso, mas não posso falar pelo outro. Quando quero fugir de alguma coisa eu saio mesmo. Escapei do Rio, do caos da cidade grande. Porque acontece isso: as pessoas que buscam a viagem de férias, como um escape pra sair um pouco da realidade, acaba sendo capturada, o sistema captura de novo.

CORAGEM

Coragem é necessário. Eu sou muito corajosa, sou corajozérrima. O lance do medo, eu tenho medo também de várias coisas, mas pra mim o importante é enfrentar. Coragem de propor mudanças, fazer alguma coisa diferente, sair do que está acostumado.

Dizem que esses estilos de vidas mais alternativos são corajosos, mas às vezes a pessoa que tem essa vida sistemática, precisa acordar cedão, ela tem muito mais coragem só que às vezes pra coisa errada.
Eu não chamaria de coragem, chamaria de condicionamento.

Mas têm dificuldades às vezes tão grandes ou maiores e superam.
Sim, sim, o poder de superação, principalmente das classes mais baixas, é imensurável. São batalhadores pra caramba. Eu não conseguiria viver do jeito dessas pessoas, tanto que escolhi não viver. Porque tudo me foi induzido pra viver dessa maneira: carteira assinada, carreira. Foi construído pra mim, mas em algum momento eu fui saindo.

Mas se as pessoas têm essa determinação, teria pra fazer outras coisas também, né?
Daria pra fazer muita coisa, mas as pessoas não se dão conta do poder que elas têm, do quanto ela é capaz de fazer. Por quê? Porque tudo é feito pra ser assim, o sistema impõem o que ele quer na cabeça das pessoas sem elas se darem conta.

AMIZADE

Amizade… é foda falar de amizade. Porque sou muito dispersa.. conheço muita gente e posso considerar todo mundo meu amigo. Não sei, o conceito de amizade eu aplico pra todo mundo. Eu confio – não que confie, mas não desconfio de ninguém. A lei natural repele. Mas amigos de longa data… não tenho amigos de infância, época de colégio. Até porque na época de colégio foi foda, eu estudava em colégio particular e desde ali eu vi que não estava enquadrada em nenhum grupo, então me afastava. Amizade que tenho de longa data é parente, prima, amiga de mãe que você cresce junto. Minha família, meus amigos, é a estrada, quem passa no meu caminho.

Quis tocar nesse assunto porque você conhece uma porrada de gente.
Não são relações muito profundas. Às vezes me pego filosofando sobre essa questão. Até dentro de relacionamentos, tenho uma relação meio líquida.

Você também prefere viajar sozinha. Acho que tem a ver esse lance das amizades serem líquidas com teu jeito de ser, né?
É. Sou muito prática, não tenho muita paciência com frescura. Vamos fazer alguma coisa? Então vamos ou não vamos. Tem gente que enrola muito, gosto de fazer do meu jeito.

E sente muita saudade das pessoas que você conheceu?
Não [risos]. É um desapego também, não se apegar tantos às amizades. Pessoas maravilhosas – eu penso nelas, é uma saudade sim, saudadezinha acho – mas nada que me prenda. Dá uma vontade de ver de novo, ir de novo, mas está longe [risos].

DINHEIRO

Não acho que seja necessário, mas não é uma coisa ruim. O que pode ser considerado ruim é como você utiliza, sua visão perante a ele. Eu tenho dinheiro, uma condição hoje, mas não deixo ele me dominar, saca? Eu aceito, simplesmente aceito. E sempre ajudo gente, seja de receber em casa ou financeiramente mesmo. Não escrevo tudo o que eu faço na página, gosto de compartilhar as ações positivas, porque eu sinto essa carência nos meios de comunicação, de compartilhar o bem. Mas já que tocou no assunto, semana passada teve uma moça que passou uma situação foda de assédio de carona e ela ficou insegura de viajar de carona. Aí uma moça que acompanha a página falou o que tinha acontecido, que eles estavam fazendo uma vaquinha, aí eu comprei a passagem pra ela.

São coisas que te fizeram também, né?
É a troca, cara. Se tenho hoje condições de comprar passagem pra menina, porque vou ficar: “ah, 200 reais”… Minha relação com o dinheiro é aceitar. Já quebrei muito a cabeça com isso, em relação aos privilégios que me chegaram. Caí nessa armadilha, [o julgamento dos outros] me machucava. O Eduardo Marinho que me ajudou a abrir a mente em relação a isso. Até então eu falava do apartamento meio assim, de cabeça baixa. Ele foi o único cara de ter uma conversa e a reação dele: “que maneiro! Que bom que teus pais te deram apartamento, que você não teve que passar por”… Lidei com uma pessoa que viu de uma maneira positiva. Porque, realmente, que bom, né? Aí passei a aceitar dessa maneira também, mesma coisa com dinheiro. E se eu puder ajudar a pessoa, mas claro que eu não posso ajudar o muito inteiro. Muita gente me pede algumas coisas, protetores de animais e tudo, mas também não posso abraçar todas as causas. Procuro ajudar mais diretamente o que chega pra mim, quem o universo coloca no meu caminho.

Tem aquela frase no teu livro: “Quanto maior seu coração, menos dinheiro você vai precisar”.
É, muito isso. Mas também não vou abdicar de tudo. Dinheiro pode ser muito bom pra ajudar pessoas, promover, porque dentro do sistema você precisa de dinheiro se quiser construir algo. Uma ONG que seja, uma rede, tem que ter recurso.

POLÍTICA

Nunca gostei de política. Como boa brasileira tradicional que cresci sendo, passei a acreditar que política é chato. Ainda acho chato, mas passei a me interessar mais por política, como militância. Militei muito em manifestação, comecei a escutar, observar, aprender. Na minha primeira manifestação fui de curiosa, não sabia nada. Os atos, quando vi galera levantando bandeira política, um monte de gente linchando, “ah, levantaram a bandeira”, eu chegava nessas pessoas com bandeira pra entender, porque não sabia. Perguntava: “vem cá, essa bandeira é do que?” Aí me explicavam. “Mas porque vocês estão levantando a bandeira aqui”? “Porque a gente a está na luta a muito tempo, isso que está em ata a gente já vem lutando muito antes”. Aí comecei a entender, aceitar. Eu gosto muito de aprender as coisas na prática, e com política não foi diferente. Não sou politizada, não sei tanto de história, mas o que me proponho participar procuro o máximo aprender.

E hoje em dia você participa de alguma militância política?
Não. Militância só comigo mesma. Vegetarianismo, feminismo. Não voto mais, não participo porque não acredito. Pra mim não existe você votar no menos pior. Incoerente, saca, está lutando contra a corrupção mas vota no cara que é corrupto, o menos ruim. Não participa. Se todo mundo resolvesse não participar, olha só que lindo que seria.

E com o feminismo, quando começou a se envolver?
Acho que sempre fui feminista só que não sabia, não chamava de feminismo. Até que numa manifestação conheci uma moça que era mais envolvida com o movimento feminista e ela me convidou para um encontro, uma residência em Brasília. Aí eu falei que não sabia nada de feminismo. Aí ela: “ah não, porque você é feminista, pelo seus atos”. “Ah, sou”? Aí comecei a me informar mais. Fui. Já participei da Marcha das Vadias. Mas não gosto de extremismo, em nada. Meu manifesto é sempre mais pra mim, pessoal, tentando influenciar as pessoas à minha volta. Minha proposta de mudança é através de exemplo, não da imposição. Não vejo funcionar a mudança por imposição, vide política.

Esse rótulo “esquerda”, se alguém te chama de esquerda, esquerdista…
Não sei direito na real, não saco. Nem esquerda e direito, sou pra frente [risos]. Ah não, sei lá. Não acredito na mudança centralizada, alguém impondo. Não é assim, a mudança vem no individual. Se as pessoas continuarem falarem mal da corrupção e não devolvendo o troco errado… pequenas realizações.

DROGAS

Eu sou caretona. Nunca fumei maconha, nunca fumei nada. Comi né [bolo de maconha na Holanda]. Imagine uma pessoa careta, em Amsterdã, uma parada pura que foi feita em casa, e eu comi dois pedações que estava delicioso o bolo. Caralho velho! Foi forte. Chamam de droga, mas é uma planta, não faz mal. Droga é cerveja, cigarro, café, açúcar. As drogas que vendem nas drogarias são as piores que tem, causam dependência, matam por dentro, e você acha que está tudo certo.

Cerveja você curte, né?
Bebo, e bebida em geral, eu gosto da sensação de estar meio bêbada. Mas eu bebo pouco. Bebo em festa, de estar com galera, mas em casa nada, não bebo. Açúcar sou viciada, mas estou procurando não comer açúcar branco, açúcar natural da fruta mesmo. Amo mel. Digo que mantenho uma alimentação vegana, mas mais ou menos né, porque eu consumo mel.

Na parte do teu livro teve a tua viagem com um cara que estava cheirado.
Ah, vários… Cheirados, bêbados de vodka.

Achei interessante que, pelo que percebi, tinha certo preconceito teu com pessoas que cheiram mas daí quando você conviveu viu que…
Não, não tinha não [preconceito]. Na verdade, a questão de confiança, eu confio que se o cara que está me levando está cheirando, bebendo, ele sabe o que está fazendo. Confio que vai dar tudo certo. Nunca fiquei apavorada. Tinha um cara que pegava a garrafa de rum atrás do banco e bebia, por um momento fiquei chocada, mas depois eu vi que ele tinha total consciência do que estava fazendo. Chegou um ponto que ele parou. Acho que cada um tem o seu limite.

Nossa sociedade é baseada toda na desconfiança, né? As leis, não tem autonomia, de cada um saber.
Huhum. Medo atrás de medo, e chamam o medo de precaução. Não veem que a ilusão do medo é precaução. Pô, eu não tenho medo. Não tenho medo de morrer, acho que essa é chave. A única certeza que a gente tem é que a gente vai morrer. Não vou morrer em função da morte, vou morrer em função da vida. Se eu morrer numa atitude que intitulariam de inconsequente, pô, cara, vou morrer feliz pra caralho porque vivi coisa a beça [risos]. Teria muito mais orgulho de morrer numa carona que… num assalto na cidade, ou atropelada, nessas situações cotidianas. Quero morrer vivendo, não… morrer morrendo [risos]. As pessoas hoje em dia não estão vivendo, estão sobrevivendo com base na morte.

MORTE

Morte é outra palavra que você já adiantou até. Morte.
É, morte é isso, morte vêm de um jeito ou de outro. Pode chegar em qualquer circunstância. Não falo que não existe perigo, existe, mas tem em qualquer lugar. O perigo não é só eu, mulher, viajando sozinha, pegando carona na estrada; o perigo é eu, mulher, homem, vivendo, qualquer coisa vivendo.

Aliás a questão do universo, do pensamento positivo, te protege, né?
Me protege muito. Atrai muito, é um exercício diário. É bizarro, você tem total controle. Parece loucura, mas você tem controle de mudar as coisas, mudar mesmo, condições físicas, naturais.

Esse lance da vida pós a morte, que você pensa disso?
Acho que não existe a morte, existe deixar esse corpo físico. Depois vai para outro lugar, vai subindo degraus, caminhando. Não acaba assim não.

Você fala isso mais como uma questão de crença ou de certeza?
Eu tenho certeza [risos]. Acho que continua.

AMOR

Amor é livre. Pra mim amor é sempre relacionado a isso. Acho que é um sentimento muito bom e muito positivo. Existem maneiras diferentes de se amar e é uma coisa muito boa que não me privo. Por isso que meus relacionamentos não deram certo, porque tenho uma visão de amor livre e as pessoas que me relacionei procuram uma coisa mais tradicional. Eu gosto de me permitir amar, se estou com uma pessoa me envolver com outra. E nem é uma questão superficial, de carne, pegar geral, transar com geral, é me permitir me apaixonar. Ou ter uma coisa mais profunda, deixar o sincronismo levar, me envolver emocionalmente. Por mais que seja momentâneo, eu gosto de me envolver. Mas amor é muito amplo, tem várias formas diferentes de amor. Amor é a lei, já dizia Raul. Se você faz com amor, seja o que for, acabou.

Eu li, não lembro aonde, que tem alguma relação do Saga com teu ex namorado, não tem?
É porque, meu ex… o Evan, nossa… uma das poucas pessoas que desenvolvi realmente um sentimento profundo. Ele era extremamente alérgico a um monte de coisa, e era mais psicológico. Quando peguei o Saga sabia que não ia ter volta [o namoro]. Mas quando encontrei com ele, e ele viu o Saga, eu não acreditei. Ele pegava o Saga e beijava o Saga, tipo, sumiu a alergia. É aqui, [apontando pra cabeça] a maioria das nossas doenças é karma, é mental, tem que ser trabalhado não com remédio, é com o espiritual que cura. A gente morou em Paraty eu, Evan e Saga, fomos pro Rio, aí foi caindo. Pirei morando com ele, não soube lidar com morar junto. Mas também foi naquele momento, hoje talvez daria certo morando com alguém, ou não, não sei.

Mas esse lance também de morar junto não necessariamente precise também…
Pois é cara, não tem que. Adoraria ter um relacionamento com alguém morando em casas diferentes. Mas eu sou muito sincera, falando de amor homem e mulher, no meu caso que sou hétero, eu deixo muito clara minha visão, sou muito sincera. Por isso que nunca saí mal, brigada, de uma relação. Conversa, diálogo é importante. E sinceridade e respeito.

DEUS

Nunca acreditei nessa ideia de Deus. Nunca me liguei muito em religião. Deus pra mim não existia, falava que era ateia, mesmo sem saber o que era o ateísmo. Até hoje, essa visão de Deus cristão que é implantada na gente, pô, sem ofender ninguém, acho uma palhaçada. Quando estava viajando com Saga, em São tomé das Letras, conheci um cara do Santo Daime. A gente entrou numa conversa de Deus. Falei “pô, não acredito em Deus”. Ele virou pra mim e falou: “Aline, está tudo errado. DEUS é uma sigla: Divino EU Superior. É você, Deus está em você”. Nossa, clareou tudo em minha mente. Talvez é isso aí então, Deus é uma energia, é só uma maneira que chama. É você em relação com mundo, não alguém que está dizendo o que você tem que fazer, que vai te punir. Eu nem gosto muito de falar Deus, eu chamo, sei lá, de energia, universo.

Você não tem religião, mas sua espiritualidade você trabalha, questão de chacras, karma?

Huhum. Acredito muito nos chacras. Eu medito. Gosto muito dos ensinamentos budistas. Mas sou bem ignorante em religião. Tem muita coisa. Tenho interesse em aprender mais sobre a Umbanda.

Mas é interessante que muitos conceitos estão em várias religiões, é legal ver como se repetem, questão de karma, por exemplo, espíritos.
Não tenho muita paciência com religiões. Começou a dizer “não pode”, não entendo. Uma que comecei a me interessar foi o Hare Krishna. Fiquei acampada num templo em Pindamonhangaba, aí vi que não é pra mim. Começa com não pode… Não amar [é que] não pode. Se amassem de forma plena, aí poderia tudo.

Não sei… nessa questão do não pode, às vezes são orientações, porque muitas ações causam mal de alguma forma. Comer carne, por exemplo, pra muitas religiões não pode porque é uma ação que vai trazer sofrimento.
Aí é questão de você entender e ter escolha. É você orientar; o que é, como é feito, você saber e ter escolha da decisão, ao invés de só impor. Nossa cultura é muito da imposição. Somos onívoros por quê? Porque foi imposto assim. Manda a galera matar o que come pra ver pelo menos da metade da população vai virar vegetariana. “Não matarás”, aí ó [risos]. Não gosto de falar de religião, acho muito… não é verdade, falam uma coisa e fazem outra. Muito dos religiosos são muito contraditórios, não vivem o ensinamento. Muitos dos conceitos que eu digo no livro, vieram me falar, depois, são conceitos bíblicos.

Aé, quais conceitos?
Fazer o bem sem olhar a quem, por exemplo. Ajudar.

FELICIDADE

Felicidade é um estado de espírito. Não existe eu sou feliz: estou feliz. São momentos, e não tem como definir, é muito pessoal. Me traz felicidade viajar, morar longe da cidade agora. Mas não posso falar que felicidade é morar longe da cidade, porque pra muita gente felicidade é morar lá. Felicidade é você estar bem com você mesmo, é estar coerente.

E você tem chateação quando as coisas dão errada, desse sentimento consegue manter algo ou às vezes desaba?
É, não sou feliz o tempo todo não. As pessoas são difíceis, às vezes me sinto sozinho pra caralho. Sei lá, como qualquer pessoa. Passo por umas loucuras emocionais aí.

E qual seria a maior dificuldade nesse seu estilo de vida?
Maior dificuldade no meu estilo de vida… não sei. Por que não tem um… [fica pensando por vários segundos]. Ter um relacionamento. Achar uma pessoa com visão de relacionamento que eu tenho. Não encontrei, em 27 anos. Mesmo os que se propõem confundem amor livre com relacionamento aberto, putaria, pegação.

Em contato que você teve com pessoas de várias lugares, quais pessoas eram mais felizes? Tem alguma característica que você vê que ajuda a pessoa a estar feliz?
Quem tem menos, eu vejo que sorri mais. Mas quem tem menos não tipo está fodido, que está querendo ter tudo e não tem. A simplicidade costuma trazer mais sorrisos verdadeiros.

E a influência dos lugares, quais seriam mais propícios?
Isso é muito relativo. Pode ter gente que está num lugar humilde e estar infeliz e pode ter gente muito rica feliz de verdade. É de cada um. Pra muita gente ser feliz é ser rico, rico material e pobre de espírito.

***

Tua visão de sociedade ideal. O que acha que seria a melhor sociedade pras pessoas?
Onde houvesse amor e respeito, principalmente. Cooperação, ao invés de competição. Ensinar às crianças, pra todo mundo, que o importante é cooperar. A gente tem isso muito enraigada na cultura, a questão da competitividade. A gente cresce escultando que o importante é competir. Não, o importante não é competir, é não competir. Competição, se deve existir, é você com você mesmo, no sentido de melhoras. Então a sociedade ideal acho que é cooperar mais, pensar no outro, sem ter ganância. Procurar mais o necessário, sabendo que a necessidade de cada um é diferente, e respeitar isso.

E a causa da sociedade estar tão desequilibrada seria por esse incentivo à competição?
Também, tem muitas causas. Competitividade está em tudo que é lado. As pessoas estão sempre querendo competir, em tudo quanto é lugar.

Talvez a competitividade seja reflexo de algo mais anterior a isso… um esvaziamento da alma mesmo.
Eu não sei a causa pra chegar do jeito que está. Mas é muita incoerência junto, muito ódio. Vira uma bola de neve, quer o amor e compartilha o ódio – não digo nem compartilha no facebook, mas no cotidiano. Por isso que venho propondo o bem, compartilhar só coisas boas. Não que só aconteçam coisas boas comigo, mas eu compartilho as coisas boas.

Quais são seus maiores medos?
Hum… [fica um bom tempo pensando]. Não sei, quando eu tenho algum medo eu trabalho eles, e passa. [Pensa mais um pouco]. Medo de, sei lá, acontecer algo ruim comigo de dor física. Tipo tortura. Mas eu não penso nisso, pensei agora. Mas eu não penso porque não vai acontecer [risos]. Não é um medo não.

Você se sente uma pessoa realizada?
Eu me realizo todos os dias [risos]. Mas não sei se sou realizada, tenho 27 anos, talvez quando eu tiver com 90 eu possa falar que sou uma pessoa realizada. Agora estou em construção.

Uma citação, uma frase, que você curta bastante.
[Pensa um pouco] Ah, o Gentileza né. Profeta Gentileza. Gentileza gera gentileza. Fala muita coisa isso, resume muito. O que você faz… gera o que você faz, o que você é. É lei da ação e reação. Raul tem uma música que também fala isso. É… ah, esqueci.
[Depois da entrevista lembramos. É a música Coisas do Coração: “Somos a resposta exata do que a gente perguntou”].

Isso eu sempre pergunto, mas você já falou: os maiores aprendizados de sua vida que você gostaria de compartilhar.
Viva com menos, desapego. Enfrentar os medos. E Aprender a lidar com realidades diferentes. Visões que o mundo é perigoso, não é tanto quanto a gente pensa. Ou talvez seja, mas o perigo pode estar em qualquer lugar. Não tem o “lugar do perigo”. Já aprovei a mim mesma o contrário em muitas vezes.

***

Na entrevista completa:
– “Já recebi gente do Copacabana Pálace, hóspedes executivos, que queriam ter a vivência (do AirBNB)”;
– “Não acredito em intuição”;
– A descrição da Praia da Atingida;
– A dificuldade de criar Saga na cidade do Rio de Janeiro;
– A história de carona de moto no ano novo;
– O latido de Hara.

Mais sobre Aline Campbell:
– Matérias no G1: Lançamento do livro, viagem à Europa, viagem com Saga;
Canal de Aline Campbell no youtube
– Entrevista tolongedecasa.com.

 

 

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