Hélio Leites

por felipenascimento90

Hélio Leites

Se poderoso, conforme atestava o poeta Manoel de Barros, não é quem descobre ouro, mas quem descobre as insignificâncias, transfiram a Hélio Leites o título de soberano. De suas mãos e ideias, emana-se a mágica que, do descarte, cria o artesanato embutido de poemas e histórias que cabem na palma da mão. Como Adorinan Barbosa cantava a transformação da corda mi de seu cavaquinho em aliança, Hélio Leites conta todos os domingos, na Feirinha do Largo da Ordem, em Curitiba, a transtornação de palitos de sorvete, caixinha de fósforo e diversos objetos em histórias, milagres, terapias. Para conhecer essa arte só indo lá mesmo – fica perto do Relógio das Flores, na frente da loja Gepeto. Mas para conhecer um pouco mais sobre a história, projetos, visão de mundo e o conceito da obra de Hélio Leites, confira a entrevista dele no Voo Subterrâneo.

Paranaense de Apucarana ou da Lapa (há controvérsias), e nascido em 1951, José Hélio Silveira Leite teve sua primeira graduação em economia e trabalhou em bancos durante 25 anos. Fazendo seus trabalhos artísticos nesse meio tempo, se formou também na Escola de Belas Artes do Paraná. Atualmente, dedica-se totalmente a seu trabalho artístico e projetos, como a Ex-cola de samba Unidos do Botão. Confira,  em áudio, a entrevista completa com Hélio Leites, e abaixo, alguns trechos selecionados.

SE TORNANDO HÉLIO LEITES

Voo subterrâneo: Eu queria que você falasse quais foram os principais acontecimentos da sua vida que te levaram a ser o que é hoje, um contador de história, um artista com miniatura. Desde quando surgiu isso?

Hélio Leites: Isso é uma coisa espiritual, né? A gente não sabe, não tem um controle disso. A gente diz assim: “Ah, esse cara é irmão desse, esse aqui é pianista e esse aqui não toca nada”. É um negócio que você não sabe. Mas eu me lembro de uma professora, chamada Latife, quando eu era pequenininho, era professora de educação artística. Ela pegou uma bola de barro, transformou em uma caneca e botou em cima do armário. Ela não jogou nada fora. E essa caneca ficou no armário uns 40 anos, 50 anos. Só fui tirar dali o dia que eu descobri que repeti a mesma caneca dela.

Ficou aonde essa caneca, na escola mesmo?

No armário da minha memória. Aí depois de adulto eu reencontrei a professora, perguntei pra ela e ela não lembrava. Diz que era neura minha, invenção minha. Pode até ser que seja, mas eu não ia inventar uma história dessa, história muito boa pra ser inventada. Porque as melhores histórias são as que acontecem de verdade.

Lembra da primeira vez que você criou?

Ah, não lembro. Eu sei que fazia uns bonequinhos com cabo de vassoura. Pegava aquela parte de cima do cabo de vassoura que era redondinho. Daí a pessoa amarrava um barbantinho, era como se fosse um pescocinho, daí a vassoura ficava enforcada, pendurada. Aí hoje, a hora em que eu pego um batedor de clara e esculpo uma cabecinha ali, é aquela cabeça primitiva do cabo de vassoura. Então as coisas são assim. As ideias vão se espreguiçando aos poucos, elas vão abrindo os braços pra atingir uma beleza.

O ARTESÃO UNIVERSITÁRIO

Eu sempre fazia deseinho. Em 74 eu comecei a mandar pra exposição. Daí eu achava que era quadro que tinha que fazer. E era difícil, porque quando você está começando as pessoas não aceitam. Não é fácil, artes plásticas é como se fosse uma coisa viciada. A pessoa pra ser um artista plástico (falando como se dissessem para ele) tem que treinar, tem que ensaiar, não é assim, você tem que ir pra escola, não pode ser alternativo. E sabe que de vez em quando os paradigmas vão caindo. Você não escuta de vez em quando uns barulhos estranhos? Sabe o que é esse barulho estranho? São os paradigmas velhos caindo. Sabe por que cai os paradigmas velhos? Pra a gente levantar os novos. Daí na (Faculdade de) Belas Artes eles querem que a gente seja artista plástico. Daí eu disse: “Não, eu não quero ser artista plástico, quero ser artesão universitário”.

Mas você acha que para artes precisa de um curso superior?

Não precisa, claro que não. Arte é uma coisa muito espiritualizada. Não é um aprendizado que nem outros, mecânico, que precisa de cálculo. Só que você vai lá e é obrigado a fazer cerâmica, eu fiz cerâmica, você é obrigado a fazer desenho. Eu queria fazer uma formação, entende? Mais pra isso, aperfeiçoar o golpe.

E aperfeiçoou?

Não sei se aperfeiçoei, mas pelo menos fiquei mais afiado. Meu repertório tem mais sustância, sabe? Eu costumo dizer que estilo não se vende no supermercado. Se vendesse no supermercado estava resolvido: você ia lá e comprava sua linguagem. Você tem que descobrir, uma coisa que você tem que puxar de você, da sua vida, da sua vivência. Às vezes você vai ver trabalho de pessoas que elas vão buscar lá no fundo das coisas. (Barulho de trovão) Olha quantos paradigmas caindo.

TRANSTORNANDO OS OBJETOS

O Adorinan Barbosa tem uma música em que ele faz uma aliança com a corda mi do cavaquinho. Então às vezes as coisas são assim: você tem que dar uma torcidinha nela, daí ela te dá outra coisa. É uma outra coisa. Não é uma transformação, é uma transtornação. Você não muda só o objeto, você muda o conceito dele.

É isso que você faz, né? Você transtorna os objetos.

Daí primeiro eu convenço ele, distraio ele. Você tem que distrair. Distraio, abstraio, e aí boto outra história. Leminski dizia que era tipo uma ginga zen. Sabe o que é ginga zen? É um negócio meio complicado. O cara fala que é uma coisa, daí você vai ver e não é aquela coisa, é outra. É um deslocamento de tempo, de ação e do objeto.

Suas ideias vem por observação, inspiração? Como você trabalha elas?

Às vezes uma pessoa fala uma palavra e daí aquela palavra é a chave da ideia. É o insight. E daí você tendo uma miragem com as recriações. Aproveitando pra fazer o Milagre dos Peixes dentro da lata de sardinha. Você pegar um negócio que ia pro lixo e mudar o caminho dele. A ginga zen é isso, você mudar o caminho dele. A hora que você pensou que ia voltar pra reciclagem você pega e transtorna ele numa história. É uma reciclagem, uma reciclanagem.

MUSEU DO BOTÃO

Em 1984 apareceu a história do museu do botão. Era uma coisa completamente diferente. Não vendia nada, sabe? Era uma palestra que a gente fazia sobre uma associação, chamava Associação Internacional dos Colecionadores de Botão. Era uma associação que tinha o objetivo de divulgar o pensamento botonista nas suas mais amplas possibilidades.

Mas botão que você diz é botão de camisa?

Botão nas suas mais amplas possibilidades. Por exemplo, a gente está conversando aqui sabe por que? Porque ainda não apertaram o botão atômico. A hora que apertarem o botão atômico você não vai poder fazer mais blog, ôooo…

Porque o botão é um objeto que está a um palmo do nossa nariz, colado na nossa pele, que a gente pega nele e mede 37 vezes por dia e às vezes não sabe nem quantos furinhos ele tem. Se você não sabe quantos furinhos tem o botão da sua camisa, meu filho, tome uma atitude. As pessoas não sabem quantos furinhos tem o botão dela e querem saber sobre manchas solares que estão a 200 milhões de kilômetros da Terra. Rabo de cometa, disco voador. As pessoas estão preocupadas com as coisas que estão fora da Terra e esquecem da velha Terra, de cuidar da Terra.

A questão do botão seria olhar pra essas coisas que ninguém percebe?

Acho que da própria consciência do homem. A própria condição do homem. Que nós estamos aqui, meu filho, é uma parceria com a Terra, não é uma coisa de subjugar. Que a Terra é uma laranja. E se você tirar todo suco da laranja vai sobrar o que? O bagaço. Aí nós estamos vivendo a era do bagaço.

A MINIATURA

Coincidentemente eu comecei a fazer miniatura depois que fiz economia. Apliquei economia na arte. Aí eu me justificava que miniatura é muito mais fácil pra carregar. Às vezes numa bolsa você põe 10 ideias. Às vezes numa tela você não consegue por uma ideia.

Todas essas suas parcerias, associações, sempre tem alguma coisa a ver com miniatura?

Eu tento arrastar para o lado da miniatura, que é um jeito mais fácil de expor.

É mais pela praticidade mesmo?

Eu acho também que as coisas grandes não resolveram nada até agora. Eu digo que os miniaturistas estão de plantão. Os caras fizeram tudo no gigantismo, o que eles conseguiram? Conseguiram interditar uma cidade, conseguiram mudar o rio de lugar. Eu estou pastoreando, não quero revolver a terra, construir presídio. Pelo amor de Deus. Acho que toda vez que o cara tem a ideia de construir presídio o primeiro que devia ser preso era ele.

E quando você percebeu que o seu caminho pela arte seria através da miniatura?

Foi deixando correr frouxo.

Foi deixando acontecer?

É, foi vendo como as pessoas me aceitavam. Aceitação…

FEIRINHA E A MORTE DAS ARTES PLÁSTICAS

Como foi essa ideia que você teve de expor na Feirinha do Largo da Ordem?

A Feirinha é a corrente sanguínea da cidade. E achei que podia me inserir naquele contexto. E aí eu já não acreditava muito em artes plásticas. Que o problema é que a artes plásticas morreu, né?

Morreu é? Como assim?

Morreu, menino, depois que inventaram uma nova atividade lá. Por exemplo, antigamente era o crítico, depois era o marchand, depois virou o curador. O curador matou as artes plásticas. Você vai numa exposição o artista plástico não ganha nada, mas o curador ganha 30 pau. Então eu digo que o curador matou a artes plásticas. E a artes plásticas sempre teve essa condescendência. As pessoas sempre fazem questão de expor a vaidade da delas. E ele quer mostrar aquela vaidade, quer vender, quer não sei o quê. Já vem uma tradição de exposição de quadro, e aquilo tem um mito.

A Feirinha seria uma forma de fugir um pouco disso, né?

A Feirinha tem uma parte de artes plásticas também. Mas o negócio é assim: pra eu vender um quadro era muito difícil, pra eu vender um passarinho era mais fácil, entende? Acho que foi mais ou menos por aí. Aí eu fui descobrindo que podia fazer miniaturinha. Daí fazer miniaturinha podia ser interessante. Que nem: você pegar uma lata de sardinha e fazer o Milagre dos Peixes dentro da lata de sardinha. E daí você vender isso aí, é uma coisa que você não consegue com o quadro.

CONTADOR DE HISTÓRIAS

Eu conto a história com o meu presente, da relação que eu tenho com o meu trabalho, o artesanato, a vida das pessoas. Daí fica uma coisa meio estranha, mas eles curtem, porque é a história do artesanato vivo. Eu gosto de ter a razão, que é a história, e ter o onírico, a imagem, que é o artesanato. Tem o sonho da casa própria, terapia pra raiva, terapia pra mãe que tem problema com o filho, terapia pra ensinar você a não cair de cavalo na vida. Sabe quando a gente cai de cavalo na vida? Quando a gente acredita 51% nos outros e 49% na gente. Então a gente tem que acreditar mais na gente, mesmo que a gente esteja errado, que é a hora que a gente aprende. E daí também esse negócio de falar com as pessoas, interlocução, é uma coisa importante. Você manda sua ideia pra lá e espera vir a de lá. É uma troca, uma troca de energia.

Algumas histórias são guardadas no livro e outras são guardadas na memória apenas. O que você considera ideal?

O ideal seria guardar tudo no livro. Porque memória, meu filho, é um negócio vivo. Está ali, de repente você bota outras informações, bota outras informações, chega uma hora que não tem mais lugar pra você guardar. Tem uma história que diz: “Que você precisa ter pra poder receber?”. Daí o sábio falou: “Lugar pra guardar”. Se você não tem lugar pra guardar, como é que você vai fazer? Tem que ter um lugarzinho pra guardar as memórias do povo.

Faz diferença se as histórias são reais ou inventadas?

Acho que tem muita história bacana que não foi escrita, daí pra compensar tem pessoas que inventam histórias que não existiram. Acho que é tudo um equilíbrio, não tem nada fora do eixo.

OS SANTOS

E tua relação com os santos é muito forte também, né?

É, contempla essa religiosidade de formação. Depois você vai indo, com o tempo, vai vendo que é uma história também. Só que daí é história que vem embutida em você, vem com o peso da religiosidade. Por exemplo, o padre de catecismo dizia que quando a Sagrada Família foi pro Egito, atrás foi uma corruíra com o rabinho apagando as pegadinhas do burrinho, e o idiota aqui acreditava. Então o cristianismo tem que acender vela pra corruíra, não é pra Jesus, é pra corruíra. Se não fosse a corruíra os soldados tinham achado Jesus e matado Jesus.

Mas sem ver a questão da religião…

Se escutar uma história de São Francisco, que nas noites de inverno ele pegava mel da mãe dele e levava de volta pra colmeia. Abala, né, a pessoa. Pode ser até fantasia, mas é uma história maravilhosa. Quando ele andava na rua, se ele visse um papel escrito ele não pisava em cima, que aquelas letras podiam formar a palavra Deus. Daí já vem o mito. E de São Francisco, puts… eu fui pra Assis. Queria ter essa experiência de sentir a presença dele. E foi forte. Ver o túmulo dele. Tem toda aquela áurea, no mundo inteiro, o francisquianismo é famosíssimo. Daí se você pega vem pra você, meu filho, se está aberto pra coisa vem. E São Francisco é uma escola maravilhosa, ele é um caminho da espiritualidade. E daí eu digo que como ele valorizava as coisas, a pobreza, ele ensinou a fazer o artesão a fazer a riqueza da pobreza. Então ele é o padroeiro dos artesões.

É mesmo? Não sabia.

Eu que inventei. Você pode ver, tudo que é artesão faz São Francisco, não faz? Daí o artesão não quer vencer, ele quer vender, que é pra sobreviver o aparelho dele.

INTERNET

Com a questão da internet mudou seu trabalho, foi mais divulgado?

Mudou, nossa. Não quero mais fazer artesanato, quero fazer internet. Fiquei 60 anos fora da internet, a hora que eu vejo, daí… A rapidez, a reverberação que tem suas ideias. Bota um videozinho seu lá no Youtube, de repente tinha 38 e-mails de pessoas falando para mim o que elas tinham achado das minhas ideias e tal. O cara fez um filme e disse assim: “Não, é três minutos só, nós vamos botar no youtube e é só isso”.

Ah, esse filme é sensacional, eu sei qual que é.

O que é tristeza pra você. Daí, puts, eu fui abrir, bati num botãozinho lá, ele abriu um negócio, meu, que ia pra tudo quanto é… Tinham pessoas que diziam… uma mulher que deixou um emprego, um monte de coisas. Puts. Aí eu disse: “Se eu soubesse antes eu tinha comprado um computador, sei lá”, mas ninguém me avisou nada, eu não sabia disso. Eu podia estar por fora aí, mas daí eu vi a importância que tem o virtual no real. Todo mundo está ligado (sussurrando) ninguém mais faz nada, menino, só ficam ali no virtual.

EU PODIA NÃO IR MAIS PRA FEIRA”

Você acessa bastante?

Mais ou menos. Eu tenho Facebook, mas eu abro mais os e-mails. Que às vezes a pessoa quer alguma peça sua, faço por encomenda. Virou um comércio, uma banca. Eu podia não ir mais pra Feira, entende? Mas aquele contato com o pessoal, eu acho que não tem… É como se fosse uma igreja. É uma coisa até meio religiosa, da pessoa passar triste lá e você dar uma alegria pra ela, uma injeção de ânimo. A Feira pra mim tem isso. É uma oportunidade de eu participar da vida das pessoas. Mas se, por exemplo, eu não precisar mais ir pra Feira eu vendo pela internet. Boto lá minhas peças. E hoje em dia eu acho que vai ser assim, o balcão mesmo vai ser virtual.

***

Agora, nessa parte da entrevista, vou falar algumas palavras e eu queria que você desse o teu entendimento sobre elas, o significado que você dá a elas. Aí a primeira é trabalho.

TRABALHO

Homem simples que trabalha é espécie em extinção. No calor de sua batalha, transtorna migalha em pão”. A Efigênia (Rolim, artista curitibana) tem uma frase que eu acho genial: “Pai não é aquele que põe o pão na boca do filho. Pai é aquele que põe a ferramenta na mão do filho e ensina ele a trabalhar”. Trabalho é uma coisa importantíssima. Trabalho é um remédio. Pode ver, tudo o que é terapia, tudo o que é projeto, está lá o trabalho no meio. Eu acho importante.

Qualquer tipo de trabalho?

Qualquer, espiritual, material. Claro que daí assim: você vai trabalhar numa coisa que você não gosta? Aí você tem que dar um jeito. Você vai trabalhar só pelo alimento ou vai trabalhar pelo espírito? O bom é quando você equilibra. Daí você trabalha pelo espírito e é o espírito que faz você evoluir. Que a única chance do espírito evoluir é através da carne.

Aquela citação bíblica que diz que o trabalho é castigo é pra algumas pessoas só que não encontraram trabalho certo, digamos assim?

É, aquela história: aquilo lá também é um livro que não fala quem escreveu, né? Tem 200 mil autores e todo mundo mexe naquilo lá…

DINHEIRO

Dinheiro. Me lembra uma música do Claudinho e Buchecha que era “Só love, só love” e eu entendia “Salário, salário”. O dinheiro é o que move a humanidade, né? Mas daí o Vinícius dizia assim: “A gente tem que aprender a ganhar dinheiro com poesia”. Que quando se ganha dinheiro com poesia você gasta sem culpa, entende? O problema de ganhar é que você diz assim: “Nossa, suei tanto pra ganhar e vou gastar assim”. Daí fica como se você tivesse fazendo um negócio com a vida. E a vida não é um negócio não, meu filho, é muito mais que isso. A vida é um compromisso que você tem que ter com ela.

MORTE

Essa também é… mas faz parte da vida, está dentro do pacote. Tem a menina que fala que “a fruta vira semente quando apodrece”. Então isso aí, meu filho, é árvore, é fruta, é animais, tudo isso. Faz parte.

Você acredita em vida depois da morte?

Meu filho, acho que o carnaval aqui é muito grande para não ter nada depois, não é? Isso aqui é a entrada, o hall do espiritual. Acho que deve ter, né, não pode…

E você tem medo da morte?

Não, estou deixando correr frouxo. Eu acho que já durei muito tempo, sabe?

Sério?

62 anos.

Você acha muito?

Meu pai durou 63.

Você espera durar até quando, ou não tem nenhuma expectativa?

Deixando correr frouxo. Mas sabe o que eu faço? Faço pequenas campanhas. Por exemplo, eu junto cigarro. Tem uma campanha anti fumo que é assim: “ Se eu pudesse eu trabalhava só pra retirar da mão esse maldito cigarro, fonte do teu escarro e tumba do teu pulmão”. Esse é um poema do Domingos Pellegrini. Aí falo pras pessoas e as pessoas me dão um cigarro. Que se cada cigarro é três minutos de vida, se eu juntar quinze eu vou ter quarenta e cinco minutos de vida. Então eu vou levar pra mesa de negociação esses 45 minutos de vida, que é pra pedir mais 45 minutos de vida.

DEUS

Existe alguma coisa na origem de tudo, né? Eu digo que deve ser muito inteligente Deus, nossa, cuidar da contabilidade geral, já pensou? Coitado de Deus, o trabalho que Deus tem. Eu acho que deve ter uma ordem geral. Lá no fundo, no fundo, no fundo de não sei aonde, no fundo, não é? É um mistério. As pessoas não esclarecem pra gente, quem sabe não fala.

E quem sabe?

Pois é, quem sabe? Ninguém sabe. É um mistério. Tem que sobrar alguma coisa pro mistério. Um dia perguntaram pra Efigênia porque ela fazia arte com papel de bala, ela disse que era o mistério dela como ser humano. Então o ser humano tem um mistério, e o mistério às vezes você não explica. Então Deus é esse mistério que a gente não explica.

E religião, você já teve alguma?

Religião eu já tentei fazer algumas. Sou católico, e agora mais recentemente estou no Santo Daime, sou daimista. Daí é tudo experiência pessoal. É como se fosse uma escola, a espiritualidade é uma escola, a gente precisa descobrir o caminho.

E como você descobre teu caminho?

Vivendo. Não tem outro jeito, é vivendo. E trazendo as aplicações que você faz dos aprendizados das religiões pra sua vida, pra ver se você se religa com o ser superior.

AMOR

Amor. Amor é a pedra que roi o mundo, é o que movimenta o mundo. Aí tem vários tipo de amor: o amortadela, que é de sanduíche, tem o amortecido, que são o caras que fazem os teares, o amor ao tecido, o amortizado. Mas eu acredito que o amor é uma coisa universal. Amar os animais, o geral. Essa coisa pessoal é sexo, é atração.

Você já foi casado, alguma coisa?

Já tentei uma vez, mas não… relações são muitos difíceis. Quando se tem muita ideia você já casa com a ideia, entende? E é muito difícil a pessoa casar contigo e com a ideia, muito complicado. Então eu deixei acontecer frouxo, não me ative muito nessa parte. Eu tentei, não deu certo, deixei quieto.

DROGAS

Droga também acho uma coisa… Pode ligar a televisão ali. Você liga ali, o problema não é a pessoa, é o excesso. A pessoa não tem o controle. Daí quando começa a entrar dinheiro no meio daí junta dinheiro com droga, com sexo, com tudo, daí é um bom programa de televisão.

O problema que você vê com essas coisas seria a falta de controle então?

O ser humano é uma máquina incontrolável, né? Pode ver, quando ela dá pro mal não tem quem segure, não tem família, é um destrambelhado. Daí tem que ter o bom senso. Cada um faz a sua, tem que arcar com as responsabilidades.

E a questão da droga com a arte?

Um fotógrafo lá da Bahia foi pra Nova York, fotografou, e ele estava fazendo experiência com LSD. Daí a pessoa falou isso, que as obras dele tinham influência com o LSD. Então não é a obra dele, tinha que ser (na autoria da obra) Toni Cravo e LSD. Daí você diz assim: “Ah, a Amy Winehouse tinha uma voz maravilhosa”. Ela só se preocupava com a arte, né? O aparelho que mantinha a arte ela não se preocupava. Então corre muito esse risco.

Na sua vida em algum momento você chegou perto, o álcool, alguma coisa?

Não, eu apanhei quando criança. Meu pai tinha um bar de clube, e aí você já fica meio arisco, você vê os vexames. Nossa. Pior coisa é você ver uma pessoa bêbada, fora do controle. Acho que deprecia a história da humanidade, e é o que mais tem.

LIXO

O homem é uma usina insuportável lixo. A gente produz tanto lixo. Tem uma ilha de 15 quilômetros só de plástico, de lixo, flutuando no Pacífico. Sabe lá o que são quinze quilômetros de lixo? Então o negócio é esse, meu filho, se a gente não reciclar a gente vai se lascar.

CRIANÇA

Tem um guru que diz assim: “Se você quiser civilizar um homem comece pela avó dele”. Então criança o que é? É um elo dessa parte. Você acha que o mundo vai mudar por causa dos adultos? Vai mudar por causa dos jovens. Então a gente tem que botar na cabeça dos jovens essa semente da mudança. Mas daí não é uma mudança de palavras, tem que ser de vida mesmo, pra elas começarem a enxergar o que vale e o que não vale a pena. E é difícil, porque tem uns concorrentes, nesse momento de mídia, multimídia, computador. O cara só quer ficar ali, meu filho, e o mundo não é só isso.

Você se sente ainda criança, pelo jeito brincalhão e tal?

Às vezes você fica com alguma coisa. Que a gente é todo um complexo. O valor da infância que eu acho que às vezes você resgata. Se você for ver a gente nunca deixa de ser criança. Quando faz uma piada, está fazendo a sua parte criança estar vivendo. Eu acho que é assim.

POLÍTICA

Política, política. Política é o teatro da degradação humana. Como se vê o besta das atitudes dos políticos, o gesto deles, tudo o que eles fazem pra se estabilizar como tal, e roubar. Eu não sei como que a gente vai fazer, mas tem que ter uma transição, a gente tem que passar por uma outra coisa, que isso aí acho que não vai se sustentar. Mas daí quem que vai ter que fazer essa revolução, as pessoas que estão lá? Eles não vão dar conta. Eles estão todos estabilizados economicamente, financeiramente. Daí é um negócio muito difícil. Mas eu acho que a humanidade vive dessas desavenças, tentando evoluir, pelo menos eu imagino.

E a política pra arte, como você entende que está sendo feito em Curitiba, a nível nacional também?

Tudo é manipulação da outra política. Daí eu nem me meto. Nossas, os projetos que eles vem, uma ideias… Fizeram um Simpósio lá em Brasília: Simpósio Nacional de Políticas Públicas para Cultura Popular. Pra que um nome tão comprido, tão complicado?

E a ideia era discutir políticas públicas?

É, políticas públicas pra cultura popular. Eu preferia que fosse uma apresentação com as pessoas, sabe? Intercâmbio com as pessoas. Mas o que sobrou mesmo foi esse intercâmbio com as pessoas, foi bacana.

FELICIDADE

Felicidade é você ter um monte de pedra na mão e não precisar atirar ela em ninguém. Então é assim, a pessoa se voltar pra ela, entende? A pessoa está muito voltada pro mundo. Você fica parado aqui, ó, o mundo desfila pra você, não é? É jogo, é luta, todo mundo resolvendo seu problema e você aqui com o seu pra resolver. Então você tem que trabalhar, é o trabalho que faz isso.

Então você considera o trabalho e o olhar interior, mais ou menos assim?

Eu acho que talvez seja isso, não tenho certeza. Quem tem certeza de alguma coisa? Ninguém tem certeza de nada.

Você se considera uma pessoa realizada, feliz?

(Balança a cabeça que não) Eu sou o fracasso em pessoa, ôooo.

Como assim?

Todas as minhas ideias, pode ver, elas nuncas se concretizaram plenamente, se você pegar a Associação do Colecionador de Botão. Se você olhar em um contexto comparando com outras pessoas, daí a pessoa chega e: “Não, eu comecei a fazer esse negócio aqui, aí o negócio foi se desenvolvendo, se desenvolvendo, virou isso aqui”. A minha não, era aquilo e virou só aquilo, entende? Não tem um desmembramento maior. Mas está tudo vivo, não está nada morto. Acho que não passei ainda a régua, estou trabalhando.

Mas essas ideias todas que você teve, o que você desejava mesmo era que tivessem uma proporção maior?

Não, eu achei que está bom assim. Mas se for comparar com outros é fracasso, sabe? Não rendeu, não produziu. Porque às vezes as pessoas comparam muito com dinheiro, o que você conseguiu de dinheiro em sua vida, se é que isso é importante. De produção, de patrimônio, entende? Daí eu sou mais pelo patrimônio imaterial, as coisas que eu penso, as amizades que eu fiz.

Mas te incomoda?

Não, assimilei bem. Chega uma certa idade que você começa a praticar o abandono, começa a eliminar as coisas que você não gosta. Você vai criando a sua trilha. E quem vai determinar sua trilha é você e seu trabalho

***

DECEPÇÕES

Você tem alguma mágoa de alguma pessoa, alguma decepção muito grande?

Graças a Deus não. De que adianta, você só sofre, meu filho. Difícil é o perdão, o complicado é o perdão.

Você já perdoou muitas pessoas?

Eu sou muito difícil pra perdoar. Eu perdoo pelo esquecimento. Daí eu não sei se é perdão.

Mas foi alguma situação…

Às vezes é de ideia, às vezes é de caráter. Daí quando é de caráter… parece que desmanchou a pessoa, quando eu vejo uma coisa de caráter, desonestidade, sabe? Você se sente muito enraizado, eu não consigo assimilhar. Violência também, não vejo justificativa pra isso.

SOFRIMENTO HUMANO

O que você acha que é a principal razão para que tenha tanto sofrimento nas pessoas, na humanidade de uma forma geral?

Acho que é o aprendizado. Às vezes a pessoa se for na boa não aprende. Tem um ditado que diz que a gente só aprende na ferida. Não adianta, se que quiser chegar lá na ferida do cara e dizer assim: “Ah, vou aprender com sua ferida”. Ninguém aprende com os erros dos outros, só com o próprio.

Mas, digamos, qual a causa para que a pessoa sofra tanto?

Acho que as pessoas não sofrem tanto. Pode ver, se a pessoa está com muito sofrimento é porque teve algum aspecto espiritual, às vezes coisas que ela fez com outra pessoa. A lei do karma, que retorna pra outra pessoa. Por isso que o bom é a gente não fazer o mal. Você faz o mal e depois diz: “Ah, mas porque que aconteceu comigo?” Por causa disso.

TRABALHO E TRANSFORMAÇÃO

No teu trabalho você tem a pretensão, você tem a vontade, de que a pessoa de alguma maneira se transforme quando tem acesso?

A gente é muito pretensioso de se dizer uma coisa dessa, mas eu sempre falo assim: a pessoa passou na minha banca, se ela está triste, eu dou uma injeção de ânimo nela. Daí ela sai de lá pensando coisa boa, positiva, sempre é assim. Um humor, uma gargalhada. Então eu acho que a banquinha é um ponto de cura pra mim. Daí como é que você se cura? Curando os outros. Daí eu acho que funciona como uma terapia mesmo, a banca. Você se distrai, vê a humanidade toda. É a tal da corrente sanguínea.

SOCIEDADE IDEAL

Você tem alguma concepção sobre uma sociedade ideal?

Eu imaginei uma escola ideal. É uma escola em que a criança tinha que ir, mas ir com o avô, era a criança e o avô. Eles ficavam o tempo todo se relacionando. Tinha o professor, mas daí a criança ia aprender com a avó do lado. Que o avô vai resolver o problema. Ó, quanto tempo foi que inventaram essa história de Sócrates, dos discípulos, de ensinar, e ainda não conseguiram aperfeiçoar? É tudo motivo pra político ganhar dinheiro. Ontem eu vi até que queimaram uma escola lá em Arapongas. Quando começa a queimar escola é porque a humanidade degradou.

O que leva alguém a queimar uma escola será?

Pode ser falta de princípio e falta de vara.

PLANOS

Tem alguns planos ainda?

Os planos hoje em dia estão assim: você tem que inventar o momento seguinte. O que você vai fazer daqui a 10 minutos, daqui a 20 minutos. A vida está muito mais rápida, está se revolvendo mais rápido.

E te incomoda essa questão de hoje em dia está tudo mais rápido, menos tempo pra gente?

Eu estou tentando levar na minha marcha. É aquela coisa: “Se leva a vida às carreiras. Na rédea não afrouxando, stress é sua bandeira. No trote vai relaxando”. Então eu mudei minha andadura para corrigir minha cavalgadura. Por exemplo, um cara que está usando um avental que nem esse aqui (o que ele costuma usar na Feira), meu filho, qual a pretensão dele? É viver o instante seguinte. Acho que isso que é o mais importante.

CITAÇÃO E APRENDIZADO

Uma citação que você gosta, de alguém ou tua que você acha que te representa, que você quer deixar para a posteridade.

O que eu queria dizer é que a gente mora numa cidade que chama Curitiba, que é uma cidade experimental, tão experimental, que até o cu tem na frente, deve ser por isso que todo mundo gosta de meter o pau nela. Daí o cara: ”Nossa, como você é bocudo”. Daí eu disse: “É que é eu faço um MC”. O cara disse: “Como é o nome do seu MC?”. “MC Fimose”. “Fimose, é muito nojento”. “Ah, é nojento mesmo. Então está bom: Fimoso”. Daí ficou Fimoso. MC Fimoso. É um MC muito discreto, sabe? Mas quando for preciso, ele arregaça, na necessidade ele arregaça.

Pra terminar, um aprendizado que você gostaria de compartilhar com as outras pessoas.

Acho que esse da Efigênia: “Pai não é aquele que põe o pão na boca do filho. Pai é aquele que põe a ferramenta na mão do filho e ensina ele a trabalhar”. Acho uma coisa muito bacana.

***

Na entrevista completa:
– O porquê do nome Hélio Leites;
– Ex-cola de samba Unidos do Botão;
– A entrevista sobre o botão numa rádio portuguesa;
– A viagem para o encontro de artistas populares;
– Um roubo na Feirinha do Largo;
– A lenha na lenda;
– Projeto Deus é humor: Teu culto em casa.

Mais sobre Hélio Leites:
O que é tristeza pra você;
Entrevista no programa Provocações;
Entrevista no programa Caldo de Cultura (UFPR TV).

Anúncios